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Diplomacia

12 de julho de 2014 - 12:34:09
por: InfoRel
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Marcelo Rech, especial de Madri



O presidente russo Vladimir Putin está consciente que a América Latina reúne as condições para tirar o país do isolamento político após a crise com a Ucrânia e a anexação da Crimeia. Em visita à Ilha, Putin prometeu mais: dos US$ 35 bilhões da dívida cubana já estão perdoados e os 10% restantes serão reinvestidos na ilha.



A Rússia tem especial interesse no Porto de Mariel construído e pago com recursos brasileiros do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).



Na América Latina, Putin visitará ainda a Argentina e o Brasil onde assiste à final da Copa do Mundo – a Rússia será a sede da próxima edição em 2018 – e participa da reunião do BRICS em Fortaleza (CE) e Brasília (DF), quando os líderes do bloco terão o primeiro encontro formal com a UNASUL.



Antes de Vladimir Putin aterrissar em Havana, o parlamento russo ratificou a decisão que pôs fim a mais de 20 anos de negociações entre Cuba e Rússia sobre a dívida contraída há época da União Soviética.



Agora, cerca de US$ 2,6 bilhões serão reinvestidos em projetos conjuntos. O pagamento será semestral e já começa em 25 de outubro deste ano devendo ser concluído em 25 de abril de 2024.



A Rússia também perdoou a dívida da Coreia do Norte, Afeganistão, Iraque e Nicarágua, num total de US$ 100 bilhões.



O dinheiro será depositado numa conta especial que o Banco de Comércio Exterior da Rússia abriu no Banco Nacional de Cuba.



Putin está especialmente interessado na futura Zona Franca de Mariel onde a Rússia pretende instalar empresas para a fabricação de produtos metálicos e plásticos e de peças para automóveis.



Em Havana, o presidente russo adiantou que uma “modernização” do Porto não está descartada com a conexão com um moderno aeroporto internacional de cargas em San Antonio de los Baños.



Haverá ainda investimentos no setor elétrico cubano com a recuperação das capacidades operacionais das centrais termoelétricas Máximo Gómez e Este de Havana. Além disso, a Rússia está de olho nas sete centrais elétricas argentinas e cinco brasileiras que utilizam peças e equipamentos russos.



A construção de um gasoduto na América Latina junto com rodovias e a venta de armamentos e aviões, civis e militares, também está na agenda de Putin.



Defesa



No giro que faz à região, Putin também quer vender armamentos e em Cuba, pretende fechar o acordo que permitirá o atracamento de navios de guerra russos para manutenção. Isso a apenas 145 quilômetros da Flórida.



Os temas considerados mais sensíveis foram tratados secretamente entre o filho do presidente Raul Castro, o coronel Alejandro Castro, e o diretor do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolay Patrushov – companheiro de Putin na KGB até 1991.



A Rússia também quer recuperar terreno. O país é hoje apenas o 9º parceiro comercial da Ilha atrás de Venezuela, China, Espanha, Canadá e Brasil.



Análise da Notícia



A Rússia resistia a perdoar a dívida de Cuba. Não via o país em condições de lhe oferecer alguma vantagem. Com o Porto de Mariel quase pronto e o isolamento político provocado pela crise com a Ucrânia, as coisas mudaram.



De repente, Cuba voltou a tornar-se interessante e estratégica como à época da Guerra Fria. Além disso, Moscou convenceu-se que a ilha não teria nem iria pagar a dívida uma vez que Cuba vive uma crise econômica crônica.



Putin também está convencido que o isolamento político é fruto de um trabalho bem coordenado a partir de Washington, mas que os países latino-americanos, mais as nações que integram o BRICS, são capazes de tirar o país desta situação.



Em contrapartida, Putin insere as petrolíferas russas na região, principalmente na exploração da plataforma continental cubana. Importante ter em conta ainda que as dezenas de acordos bilaterais firmados por ambos os países contemplam uma cooperação econômico-comercial de longo prazo para depois de 2020.



A Rússia acredita que os países latino-americanos hoje governados por partidos de esquerda, a percebem como um contrapeso à influência norte-americana na região. A mesma visão se dá em relação aos países africanos e asiáticos. Com isso, a Rússia tenta expandir sua influência política no mundo como tentativa de neutralizar o poder dos Estados Unidos.



Para consolidar esta estratégia na América Latina, Moscou tem a ambição de aumentar em cinco vezes o comércio com a região. Isso bem no quintal norte-americano.