Brasília, 06 de agosto de 2020 - 15h17
Os militares e uma destituição delirante

Os militares e uma destituição delirante

10 de abril de 2020 - 18:48:28
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Marcelo Rech

A semana passada foi marcada por um alvoroço na região por conta de um delírio publicado pela imprensa brasileira, dando conta que os militares haviam dado um golpe destituindo o presidente Jair Bolsonaro. Há, ainda, notícias construídas com base em interpretações tão equivocadas quanto mal intencionadas. Rapidamente, essas notícias cruzaram as fronteiras e geraram preocupação em países como Argentina, Paraguai e Uruguai.

Uma delas, sugeria que o general Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil, seria agora o chefe de um comando ou junta militar, que teria isolado Bolsonaro por conta dos seus desatinos. Outra, carregava nas tintas quando o vice-presidente Hamilton Mourão questionava a ausência de coordenação das ações pelo Executivo, lacuna preenchida justamente por Braga Netto.

Com cerca de 14 meses no poder, o atual governo tem cometido uma série de erros e, na gestão da crise por conta da pandemia, muitos desses erros vieram à público de forma mais clara. A crise também desnudou a incapacidade do governo de administrar as ações de maneira ágil e transparente. Deu-se mais importância aos aspectos políticos quando a situação cobra foco nas medidas sanitárias.

Jair Bolsonaro está convencido que há um movimento em curso para derrubá-lo. E não deixa de ter razão. Os oportunistas são muitos. Ante a inviabilidade de nomes para a sucessão em 2022 (hoje, em todos os cenários, Bolsonaro se reelege), a estratégia passou a ser outra: desgastar o presidente até desconstruir por completo a sua imagem positiva.

Isso tem feito com que inimigos raivosos troquem afagos. Nas eleições de 2014, PT e PSDB que polarizavam a disputa, se uniram para abater Marina Silva que havia herdado a candidatua de Eduardo Campos. Quando ela começou a subir nas pesquisas, Aécio Neves e Dilma Rousseff deram as mãos e passaram a concentrar os ataques na candidata do PSB.

A estratégia funcionou. PT e PSDB foram ao segundo turno e retomaram briga. Esse cenário se desenha neste momento. Todos parecem ter o mesmo inimigo a ser abatido. Depois, a conversa será outra. Até aí, tudo bem, é do jogo.

No entanto, há um elemento novo neste momento: os militares. Bolsonaro não economizou ao chamá-los para postos-chave no seu governo. Alguns já caíram, mais eles ainda dão as cartas. Portanto, para que o presidente possa ser abatido, é preciso arrastá-los para um movimento de isolamento que culmine na renúncia ou afastamento do presidente.

No entanto, os militares que já divergem e muito do presidente, não atuam sob a mesma lógica dos políticos. Na ética militar, insubordinação é um pecado tão grave quanto a corrupção. Acreditar que os militares se prestariam a qualquer coisa que, minimamente, pudesse ser vista como uma conspiração, chega a ser estúpido.

Gerenciar as ações do governo é uma prerrogativa da Casa Civil e cabe ao general Braga Netto, cumprir a missão. Ao concentrar as ações no Planalto, o governo também minimiza os erros, alinha o discurso, apara as arestas e divide as responsabilidades. Agora, há uma coordenação.

O próprio presidente reconheceu que andou se bicando com o seu ministro da Saúde, mas deixou claro quem é que manda. Essa postura agrada aos militares sempre tão ciosos do respeito à hierarquia. E esse é o entendimento da caserna: Bolsonaro não é um lorde, nunca foi, mas foi eleito com mais de 57 milhões de votos. Portanto, ocupa legitimamente o cargo.

É mais fácil os militares se unirem para viabilizar o governo. Os políticos que alimentam os meios de comunicação, ainda não entenderam os recados que têm sido verbalizados. Para os militares, esses políticos são os mesmos que se omitiram quando o país atravessava uma de suas piores crises políticas. Não serão eles, muitos condenados e outros investigados por corrupção, que irão seduzir as Forças Armadas para embarcarem numa aventura golpista.

Marcelo Rech é jornalista, analista internacional e diretor do Instituto InfoRel de Relações internacionais e Defesa: E-mail: inforel@inforel.org.