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Opinião
A corrupção e o seu impacto na Política Externa Brasileira
09/05/2017 - 12h48

Marcelo Rech

O Brasil enfrenta uma crise política agravada por uma derrocada econômica que também abala a sua imagem, projeção e poder de influência junto à comunidade internacional. Os casos de corrupção investigados no âmbito da Operação Lava Jato também têm sido criteriosa e rigorosamente analisados por diplomatas estrangeiros, executivos de multinacionais e especialistas do mercado financeiro.

É inegável que muito além da polarização e da briga político-partidária, quem está perdendo com todas as revelações é o país como um todo. Investimentos foram suspensos e a confiança na capacidade do Brasil de reinventar-se é bastante limitada.

Além disso, a política externa brasileira mostra-se incapaz de reverter esse quadro. O novo governo chegou com a promessa de resgatar o protagonismo do ministério das Relações Exteriores como principal formulador e executor dessa política, algo que até então, não se confirmou.

Em menos de um ano, Michel Temer já está em seu segundo chanceler. O tom em relação àqueles que não o reconhecem como um governo legítimo, subiu, nada além disso. O Brasil não exerce influência sequer no âmbito regional e assiste o mundo lidar com crises e conflitos sem que sua voz seja ouvida.

O que temos neste momento é a confirmação de que trocar ministro é uma coisa, mudar uma política, outra, completamente diferente. A política externa brasileira precisa urgentemente passar por um processo de modernização, reoxigenação e desideologização para que o país possa contar com ela para recuperar-se política e economicamente.

Já não basta dizer que o país vai entrar nos trilhos ou que o sentimento das pessoas é de que a situação está melhorando. O problema é que o Itamaraty foi contaminado em 13 anos e sete meses, por uma política ideológica que primou pelo preconceito em relação às grandes potências e blocos e focou em países e regiões que pouco ou nada poderiam oferecer em troca.

Nada além de um suposto voto na Assembleia Geral da ONU em relação à demandas que estão completamente fora do radar daqueles que comandam e lideram a ordem internacional.

Mudar cobra recursos, planejamento, consenso e coragem, sobretudo, coragem. O Brasil nunca se sentará à mesa com os grandes se não entender que lidar com o ônus é mais importante.

Diante desse cenário, no tempo que resta, o atual governo poderia pelo menos encaminhar o processo de reformulação doutrinária da nossa política externa, elaborar uma espécie de Livro Branco da Política Externa, e repensar o lugar do país no mundo. Sinalizar ao mundo o que priorizamos, como pensamos e como lidaremos com os temas das agenda internacional.

Não é mais possível manter a política externa como campo de batalha da política interna. O mundo ainda enxerga o Brasil como uma potência, mas é preciso responder aos desafios que se apresentam e de forma urgente.

Gostem ou não, o Brasil é um gigante e como tal deve comportar-se. Não se trata de impor essa força, mas de construir unidade em torno de projetos e de estabelecer diálogos sobre temas e agendas que nos fortaleçam como ator político relevante.

A crise também exige do Brasil um comportamento mais assertivo em relação ao aprofundamento do comércio exterior e da atração de investimentos. Enquanto não soubermos lidar com essa realidade, não teremos nem uma coisa e nem outra. E isso passa por uma profunda reflexão acerca de uma política externa de Estado e não de governo.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.