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Opinião
América Latina: turbulências, crises e a farsa venezuelana
10/04/2017 - 13h48

Marcelo Rech

A América Latina atravessa há alguns anos, uma crise de identidade que compromete o seu desenvolvimento econômico e afeta diretamente os processos de integração. Modelos políticos divergentes têm sido incapazes de construir pontes e ignoram práticas universais como o respeito aos princípios democráticos capazes de aproximar por interesses maiores, países cujos governos não comungam das mesmas práticas.

Vivenciamos talvez, um piores momentos políticos de nossa história. As crises crescem na mesma proporção em que as lideranças políticas se ausentam. Mecanismos de concertação política estão acéfalos, impotentes ante um cenário de distanciamento cada vez maior e mais radical.

Há uma deterioração da democracia e das instituições na maioria dos países da região. Países que condenaram de forma veemente o processo de impeachment levado a cabo no Brasil, taxando-o de golpe de Estado parlamentar, são os mesmos que confiscam imunidades e prerrogativas dos seus legislativos.

Há duas semanas, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela, avocou para si o papel da Assembleia Nacional cujas prerrogativas já haviam sido “confiscadas” pelo Poder Judiciário a mando do Executivo. Em meio às pressões internacionais, Nicolás Maduro pediu aos magistrados que voltassem atrás e restituiu o Parlamento.

Não sem antes reforçar as ameaças de sempre e invocar a figura do inimigo externo como responsáveis pelo caos interno. Tal articulação desnuda por completo a farsa democrática armada sob o regime chavista. Mostrou ao mundo, inclusive à grande parte dos seus defensores, não há independência entre os poderes naquele país. E sem essa independência, não pode haver democracia.

A restituição da Assembleia Nacional venezuelana, no entanto, não impede que o derretimento do regime continue. A Venezuela é o principal exemplo de como caminha a América Latina em meio à turbulências e crises. Nicolás Maduro e o regime chavista sabem que o isolamento político é cada vez maior e mais forte. Os poucos aliados que restam, não possuem recursos econômicos ou bélicos para defender uma revolução fracassada.

Resta à Venezuela, apostar na falta de credibilidade da Organização dos Estados Americanos (OEA), na divisão interamericana e na incapacidade da oposição interna de organizar-se. Por outro lado, Caracas parece ainda não ter compreendido que as coisas estão mudando, ainda que lentamente.

A Bolívia, por exemplo, retomou as relações com o Brasil depois de somar-se àqueles que subiram o tom dos ataques por conta da queda de Dilma Rousseff. La Paz sabe que o aumento na oferta de hidrocarbonetos pressiona os preços para baixo e pode levar Brasília a repensar o acordo energético em vigor. Evo Morales baixou o tom, mesmo mantendo a retórica na defesa dos antigos aliados. Ele sabe que Caracas está por um fio.

No Paraguai, direita e esquerda articulam uma mudança constitucional para validar a reeleição. Não se trata de um golpe dos colorados, mas de uma ação que conta com o beneplácito do ex-presidente Fernando Lugo, deposto em 2012 e que sonha voltar ao cargo. Assunção arde em fogo e incertezas em um momento de crescimento econômico.

Os políticos só não contavam com a mobilização popular que já coloca em perigo as articulações para se mudar a Constituição. A sociedade paraguaia parece ter percebido a tempo que para os políticos não existe esquerda ou direita, mas interesses pessoais, corporativos e empresariais.

O Chile, modelo de democracia regional parece não conseguir superar uma crise política interna agravada pelas disputas com a Bolívia que fez de uma saída para o mar, sua principal bandeira. O mau humor nas relações bilaterais já contaminou a UNASUL, por exemplo.

Até mesmo a Colômbia sob Juan Manuel Santos, capaz de pôr fim a um conflito interno de mais de 50 anos, pode retroceder. Salpicado pelo escândalo da Odebrecht, o presidente corre o risco de não fazer o sucessor e uma derrota nas urnas em 2018 é capaz de rasgar os acordos de paz.

O mundo assiste preocupado a situação. A Colômbia pode passar de exemplo exitoso de diálogo e superação à uma situação ainda pior com o ressurgimento de organizações hoje adormecidas. Já se sabia desde o princípio que nem todas as frentes das FARC se somariam aos acordos, mas o que temos agora é a possibilidade real de que esses mesmos acordos não sejam implementados.

As recentes eleições presidenciais no Equador confirmam essas tendências. A vitória do candidato da situação por uma margem mínima, mostra que há um esgotamento do atual modelo tido como “progressista” na região. Na prática, há um cansaço explícito com os governos. Vide o que se passa na Argentina de Mauricio Macri há pouco mais de um ano no poder.

Com o Brasil não é muito diferente. Além das graves revelações da Operação Lava Jato, da “internacionalização” da corrupção por meio das grandes construtoras, o país tem que lidar com denúncias envolvendo a carne, um dos principais produtos do agronegócio. Resgatar a confiança de mercados que levaram décadas para serem conquistados demandará uma estratégia coordenada, cautelosa e ao mesmo tempo, agressiva, pois o que não faltam são países esperando herdar o espólio desse mercado multimilionário.

Some-se a tudo isso, os problemas comuns que atingem a região e que somente serão superados por meio da cooperação e confiança mútuas. Crescem à margem dos problemas políticos, as ações do crime organizado, do narcotráfico, do contrabando de armas pesadas e até mesmo do tráfico de pessoas.

A América Latina passou anos buscando uma integração que está desmoronando. E o está porque, entre outras coisas, nunca preocupou-se em construir unidade. Diante de um cenário como este, serão irreversíveis as perdas econômicas e comerciais, elementos que afetam diretamente a qualidade de vida dos seus habitantes.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.