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Opinião
Estados Unidos e China: a arte de não fazer a guerra?
14/02/2017 - 14h14

Giovanni Hideki Chinaglia Okado e Lorrany Mendanha Bastos

A sabedoria milenar de Sun Tzu aconselha que a melhor vitória é aquela que se conquista sem guerrear. Esse conselho, implicitamente, parece ter sido incorporado pelas lideranças políticas estadunidenses e chinesas nas últimas décadas. Evitar um confronto direto entre ambos os países para alcançar vitórias sobre o rival tornou-se uma das prioridades estratégicas de suas respectivas políticas externas. A reviravolta no comportamento dos Estados Unidos no sistema internacional, bem como a procura pela consolidação do poder chinês nele, desperta o receio de que a sabedoria milenar ceda lugar à arbitragem pelas armas. A incógnita é se um eventual entrechoque poderia ocorrer ainda neste ano.

Qualquer análise conjuntural, baseada no personalismo dos presidentes dos dois países, seria imediatista. Não é apenas o unilateralismo excêntrico de Donald Trump nem o nacional-globalismo de Xi Jinping que colocarão ambas as potências em confronto direto. O personalismo contribui, mas há fatores estruturais importantes. Primeiro, é preciso compreender que a perspectiva de tal confronto evidencia a característica mais marcante da política mundial contemporânea: o G-Zero. Este termo foi elaborado por Ian Bremmer e Nouriel Roubini em 2011, em artigo na Foreign Affairs, e pressupõe a ausência de país ou bloco de países com capital político-diplomático capaz de conduzir a agenda internacional. Consequentemente, isso elevaria a possibilidade de conflito em detrimento da cooperação. E mais, diante deste mundo não hegemônico e não cooperativo, como destaca Jean-Marie Guéhenno em artigo na Foreign Policy neste ano, é a barganha tática que se converte no instrumento mais efetivo – senão o único – para resolver qualquer problema, e não a adoção de uma estratégica de longo prazo.

Em segundo lugar, e relacionado com o anterior, um movimento “desglobalizante” está se intensificando, marcado pela supremacia dos interesses nacionais sobre interesses globais. Há um descolamento cada vez maior entre esses dois interesses e se torna difícil precisar o limite da concorrência entre os interesses nacionais. O Center for Preventive Action, do Council on Foreign Relations, em seu levantamento de riscos para os Estados Unidos em 2017, classificou duas prioridades como moderadas para o país: um conflito armado entre China e Japão pela soberania das Ilhas Senkaku/Diaoyu e um conflito armado entre a China e um ou mais países do sudeste asiático (Brunei, Taiwan, Malásia, Filipinas ou Vietnã) por questões marítimas territoriais. Para o think tank estadunidense, esses dois possíveis conflitos, embora tenham pouca probabilidade de ocorrência, teriam alto impacto para os Estados Unidos, na medida em que poderia arrastar o país para um conflito direto com a China.

A consultoria Eurasia Group identifica que dois dos dez principais riscos para 2017 estão diretamente relacionados com o comportamento dos líderes estadunidense e chinês. Por um lado, Trump está adotando uma postura de tornar os Estados Unidos independente do mundo, renunciando ao papel de liderança global e focando apenas em acordos que tragam benefício imediato para o país. Por outro, Xi tenta apresentar a China como a nova líder da globalização e promete uma reação exagerada contra qualquer desafio internacional ou doméstico aos interesses nacionais chineses. O confronto entre os dois posicionamentos tem enfatizado a possibilidade de um conflito próximo, embasado pelas provocações entre as duas lideranças, particularmente em três casos: a militarização chinesa, Taiwan e Coreia do Norte.

O rápido crescimento econômico e militar da China é encarado como um desafio a ser enfrentado pela política externa estadunidense, que, por sua vez, tem causado controvérsias que ferem a base do regime chinês. Como resultado, o discurso de ascensão pacífica, até então defendido pela China, abre espaço para uma abordagem mais brusca. Em um primeiro momento, a possível aproximação de Trump com o presidente de Taiwan representa uma quebra do acordo que guia as relações sino-americanas, o qual compreende Taiwan como uma província sob a administração chinesa, impedindo que relações diplomáticas oficiais sejam mantidas entre os dois territórios. Vale ressaltar que, desde meados de 1990, a China lida com a situação taiwanesa com extremo cuidado, direcionando suas políticas de segurança para conter possíveis conflitos na região e priorizando o movimento separatista como ameaça nacional.

Em contrapartida, a medida que busca oferecer uma nova liderança para a região asiática, a China almeja dissipar a influência estadunidense, em especial, na zona compreendida pelo Mar do Sul da China e seu entorno estratégico. Tal objetivo se relaciona com o alinhamento dos Estados Unidos com o Japão e o crescente monitoramento que a potência ocidental vem direcionando as ilhas artificiais construídas no local. Ao assumir a presidência, Trump declarou sua pretensão de continuar com o tratado de segurança firmado com o Japão na década de 1960, o qual aplica para si a responsabilidade de defender a administração japonesa nos territórios contestados pela China. Em entrevista a NBC, o porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Lu Kang, ressaltou que as medidas tomadas pelo novo governo dos Estados Unidos vão contra os interesses nacionais da China, não havendo espaço para acordos ou negociações sobre os termos em questão. Em oposição, Trump havia divulgados em suas redes sociais a objeção contra a disposição chinesa na conjuntura do poder no leste asiático. 

As controvérsias envolvendo os dois países se intensificaram ainda mais pelas crescentes desavenças que abrangem o programa de armamento nuclear desenvolvido pela Coreia do Norte. Palco de recentes testes nucleares, a Coreia do Norte é uma conhecida rival das ideias estadunidenses. A proximidade chinesa ao governo norte-coreano suscita a imagem de que o apoio chinês é crucial para a evolução dos projetos desenvolvidos por Pyongyang. Recentemente, a China foi responsável por enviar caminhões para o transporte de mísseis para o Estado vizinho, o qual se tornou fonte de  constrangimento internacional. Desde a administração Obama, os Estados Unidos se direcionam para a execução de um projeto que, em parceria com o Japão e a Coreia do Sul, seria capaz de controlar possíveis ataques norte-coreanos. Além disso, o sistema também permitiria monitorar as manobras militares da China na região, intensificando a oposição das deliberações de ambas as nações.

Enfim, os três casos acima denotam o recrudescimento das tensões sino-americanas e elevam a preocupação de um conflito armado direto entre as duas potências neste ano. Essas tensões são alimentadas pelas personalidades fortes de Trump e Xi, no entanto, as provações de ambas as lideranças parecem adequar-se à filosofia milenar chinesa: manter a perspectiva de um conflito entre ambos no imaginário da política internacional exatamente para evitá-lo. A arte de não fazer a guerra é exatamente provocá-la para não realizá-la, na medida em que os custos de sua ocorrência tornam-se altíssimos, não só para Estados Unidos e China, mas para todo o mundo.

Giovanni Hideki Chinaglia Okado é professor assistente de Relações Internacionais da PUC Goiás, mestre em Relações Internacionais pela UnB e graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca. E-mail: giovanni.okado@gmail.com.

Lorrany Mendanha Bastos é graduanda em Relações Internacionais da PUC Goiás. E-mail: lorranymbastos@gmail.com