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Opinião
A África que o mundo não percebe e o Marrocos como ator econômico, político e estratégico
31/01/2017 - 15h47

Marcelo Rech

O continente africano é integrado por mais de 50 países, a maioria deles desenhado a partir de interesses europeus que alimentaram divergências, discórdias, conflitos e guerras. No entanto, há uma nova África que se fortalece, mas que o mundo ainda não percebeu.

O Brasil sempre teve especial vocação para este continente, sobretudo por seu perfil atlântico, mas muitas ações acabaram abandonadas ao longo dos últimos anos por razões injustificáveis, seja do ponto de vista econômico-comercial, seja por razões geoestratégicas.

A África que ainda passa despercebida registra um crescimento global de 5% ao ano desde o início do século. No geral, a África reingressou na era da globalização após ter ignorado este processo até os anos 1990. Para se ter uma ideia, a quantidade de telefones em toda a África era semelhante ao que existia apenas em Manhattan.

Atualmente, mais de 600 milhões de celulares estão registrados no continente. África entrou na globalização e experimenta um crescimento econômico, mesmo que impulsionado por mercadorias e não seja suficientemente abrangente para atender a toda a sua população.

É importante ter em conta que a África desempenhará um papel cada vez mais relevante na cena internacional, embora precise lidar de forma séria e responsável com o seu crescimento populacional.

O fato de que há sete crianças por mulher na África Ocidental pode converter-se em uma fonte de desestabilização que irá retardar o crescimento econômico e diminuir o PIB per capita. Trata-se de um desafio social e de segurança.

Mas há dados que justificam o otimismo. Em 2016, 160 milhões de africanos tiveram uma renda anual superior aos US$ 5 mil. Esta nova classe média africana certamente influenciará a demanda local e irá estimular um círculo virtuoso de produção.

Marrocos

Com cerca de 33 milhões de habitantes, o Reino do Marrocos é um dos poucos países africano, árabe, muçulmano, atlântico e ponte para a Europa. Nesta nova África que se consolida, o país exerce um papel especial com um elevado potencial de crescimento.

Importante destacar o interesse das empresas marroquinas pela África, uma aposta que objetiva reduzir a dependência das economias europeias em crise. Há um Eldorado Africano permitido aos marroquinos para diversificar e expandir seus negócios internacionais.

Hoje, as grandes empresas marroquinas de diferentes setores (telecomunicações, sistema financeiro, construção civil, mineração, água e eletricidade, gestão portuária, entre outros) estão presentes em mais de vinte países subsaarianos.

O perfil mutli-setorial da economia marroquina permite que o seu setor privado contribua para a consolidação das demais economias africanas em sua diversificação. O crescimento da África está inegavelmente vinculado ao desenvolvimento do Marrocos. Além de fortalecer uma parceria Sul-Sul, o modelo marroquino na África segue os contornos de um quadro real da co-desenvolvimento.

As raízes do tecido empresarial marroquino na África atual é substancial e continua crescendo: 42% do investimento estrangeiro direto (IED) marroquino estão destinados para a África; operadores marroquinos nos setores financeiro e de seguros estão presentes em 25 países do continente; e o investimento das empresas marroquinas é multi-setorial, que vai das finanças e da indústria, à áreas estruturantes, como energia, água, transportes, habitação social, saúde e educação.

São elementos que redesenham a política contemporânea africana do Marrocos. No entanto, também há frustração com a forma como o Ocidente  lida com a África Subsaariana, principalmente para quem conhece o histórico econômico, comercial, cultural e religioso que une o Marrocos com o restante do continente.

O Marrocos também quer jogar como um ator convergência através do seu centro financeiro Pan Africano como Casablanca Finanças City, e a companhia aérea, Royal Air Marrocos.

Os desafios da integração são enormes, porque a África Ocidental ainda sofre de fragmentação. Com a criação de instituições que chegarão à toda a África a partir de Casablanca, o Marrocos busca que as multinacionais instalem suas bases de operações a partir de um país que goza a segurança de suas instituições, estabilidade e uma taxa de crescimento atraente.

Tudo indica que este posicionamento guarde um futuro promissor, embora o aumento do investimento deva ser posto em prática para atingir uma massa crítica.

O Marrocos espera se beneficiar da sua localização geográfica privilegiada e das suas relações estratégicas com parceiros comerciais europeus, norte-americanos, do Golfo e do Mediterrâneo para se posicionar como um centro econômico e financeiro para a África.

Várias iniciativas nesse sentido estão sendo implementadas como o estabelecimento do centro financeiro, como Cidade Financeira de Casablanca, que visa atrair investidores internacionais e proporcionar-lhes infraestrutura e adequadas condições que lhes permitam otimizar a rentabilidade de seus investimentos em projetos no Norte de África, na África Ocidental e na África Central. Através deste papel de facilitador no comércio e finanças internacionais, o Marrocos enfoca-se na cooperação triangular, Norte-Sul e Sul-Sul. Casablanca está gradualmente emergindo como a capital financeira da África, desde 2016.

A criação da Cidade Financeira de Casablanca em setembro de 2010 prevê impostos muito vantajosos para os investidores estrangeiros que desejam estabelecer-se na África.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais. E-mail: inforel@inforel.org.