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Opinião
O Marrocos como ator africano e global: uma agenda econômica e estratégica
25/01/2017 - 13h20

Marcelo Rech

Graças a parcerias desenvolvidas com a Bolsa de Paris e a London Stock Exchange, a Cidade Financeira de Casablanca atrai grandes nomes das finanças internacionais, como BNP Paribas, AIG, Société Générale, Coface, Boston Consulting Group e EximBank of China. O Marrocos também tende a tornar-se uma placa rotativa das TIC na África.

Esta reconquista da África significa muito mais uma necessidade geoeconômica de multiplicar os seus parceiros comerciais e melhorar a sua competitividade. Várias empresas nacionais e privadas estão posicionando-se como líderes de ouro e já na África: Royal Air Marrocos, Attijariwafa Banco, BMCE Banco, Somagec, Marrocos Telecom, Sothema, Managem, HPS, Finatech, S2M e Grupo M2M.

Agora, a Etiópia se juntará ao clube dos grandes produtores de fertilizantes através de uma parceria celebrada com o Marrocos. Este megaprojeto vai exigir um investimento de US$ 2,4 bilhões em sua primeira fase, para produzir 2,5 milhões de toneladas/ano de fertilizantes até 2022. Isso fará com que o país se torne autossuficiente em fertilizantes, com um potencial de exportação.

O Marrocos e a Etiópia compartilham essa cooperação Sul-Sul e aspiram dar à África os meios para desenvolver-se por seus próprios recursos naturais e humanos.

Neste investimento, o Marrocos oferece seu fosfato e a Etiópia fornece gás e potássio. O projeto será, naturalmente, um modelo para o desenvolvimento dos recursos naturais em ambos os países.

Além disso, o investimento contribuirá para ajudar a Etiópia a desenvolver uma unidade de produção de fertilizante para todo o mundo. Ou seja, no lugar de vender gás natural liquefeito (GNL) com muito pouco processamento local, o país possui não só uma indústria, mas criará valor agregado através dos seus recursos. A Etiópia, que em 2016 importava 100% do seu fertilizante será em 2025, com este projeto, não apenas autossuficiente, mas exportador.

O Marrocos reforça assim a sua posição como o segundo maios investidor africano na África, além de ser o primeiro na África Ocidental.

Também reforça esse papel do Marrocos, a realização da chamada COP22 que reuniu 50 países africanos que fizeram do Marrocos o seu porta-voz sobre as mudanças climáticas.

Importante observar que o Marrocos havia abandonado a ex--Organização da Unidade Africana (OUA) em 1982 e decidiu voltar dentro de instituições africanas que desempenham um papel importante. Vários países da União Africana defendem esse retorno. A Cúpula da UA, a ser realizada neste mês, deverá aprovar esta decisão. O Marrocos já tem a maioria dos votos para ingressar no mecanismo regional.

Também exercerá papel de relevo o projeto do gasoduto que ligará os recursos de gás da Nigéria com os de vários países do Oeste Africano e o Marrocos. O gasoduto será concebido com a participação de todas as partes interessadas a fim de acelerar projetos de eletrificação de toda a região e proporcionar uma base para a criação de um mercado regional de eletricidade competitivo.

Este gasoduto será capaz de ser conectado ao mercado europeu da energia e também pretende atrair capital estrangeiro, melhorar a competitividade das exportações e aumentar o processamento local dos recursos naturais, o que abrirá oportunidades de negócios significativos para indústria e investidores.

Um órgão de coordenação entre o Marrocos e a Nigéria foi criado, apoiado por fundos soberanos de ambos os países, nomeadamente a Nigéria Sovereign Investment Authority (NSIA) e Ithmar Al Mawarid (Ithmar Capital).

"Estamos no alvorecer de uma nova era para a África. A África irá moldar o seu próprio futuro e estamos extremamente orgulhosos de fazer parte desta viagem única para a prosperidade do nosso continente”, afirmou o diretor-executivo da NSIA, Uche Orji.

Trata-se de um projeto "ambicioso", lançado pelos dois países por ocasião da visita oficial do rei Mohammed VI à Nigéria recentemente, quando lançou as bases de uma verdadeira parceria estratégica entre os dois países baseada na Cooperação Sul-Sul.

Desenvolvimento sustentável

Durante a COP22, o Marrocos anunciou um acordo sobre a criação de um fundo de infraestrutura verde para a África. O principal objetivo deste fundo é catalisar a transição para uma economia mais verde através de um crescimento eficiente e de baixo carbono inclusive o acesso à energia limpa e uso eficiente da agricultura e recursos água.

Sem dúvida, a realização da COP22, no Marrocos, deu novo impulso para a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável no continente.

Chefes de Estado africanos reafirmaram o seu compromisso com uma maior coerência às suas estratégias e para acelerar a implementação de iniciativas já identificadas. Uma das principais é a iniciativa marroquina conhecida como "tríplice A" para a agricultura, energia renovável, conservação da bacia do lago Chade, crescimento azul, corredor Africano de energia limpa, fundos azuis para a bacia do Congo, e o projeto da grande muralha verde para o Sahel.

A iniciativa AAA visa reforçar a capacidade de resistência dos agricultores africanos e promover uma gestão sustentável dos solos, melhorar a gestão da água, bem como a capacitação e mecanismos de financiamento.

Hoje, a África paga um alto preço nesta equação e clima do continente acaba sendo o maior penalizado. Para o Marrocos, é fundamental que a África tenha uma só voz ao exigir justiça climática e mobilização dos recursos necessários.

Por fim, Rabat acaba de receber o primeiro centro de treinamento da África, que trabalha para promover o "meio do Islã" e participar na luta contra todas as formas de obscurantismo, extremismo e o terrorismo.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais. E-mail: inforel@inforel.org.