Para imprimir é necessário habilitar o pop-up Enviar a notícia por e-mail
Aumenta a fonte 
Aumenta a fonte 
Opinião
Fidel Castro: morre um símbolo que deixa mais incógnitas que certezas
02/12/2016 - 15h37

Marcelo Rech

Fidel Castro Ruz, 90 anos, líder da Revolução Cubana. Um personagem para a história. Amado e odiado. Alguém para quem o meio termo não existia: ou se era revolcionário ou inimigo. Sua morte deixa mais incógnitas que certezas, não apenas para uma Cuba sedente por mudanças, como para o mundo que aprendeu a admirar um país tão pequeno quanto frágil, mas que desafiou a principal potência econômica e bélica do planeta sem se curvar.

A morte de Fidel Castro é a morte de um símbolo, de alguém que já estava nos livros de história, para o bem ou para o mal. Não foi a morte de um líder que seguia comandando com mão de ferro. Ele já não influenciava nas decisões do próprio irmão, Raul, hoje com 85 anos e cumprindo seu último mandato (de acordo com decisão pessoal).

A morte de Castro marca o fim de uma era. Uma era de muitas contradições. Ele não foi apenas o líder de uma revolução inspiradora, mas o artíficie dos movimentos esquerdistas latino-americanos. Foi ele quem fez nascer os principais partidos de esquerda na região. Partidos que chegaram ao poder pelo voto e não pelas armas, como foi o caso de Cuba. Mas que, uma vez no poder, falharam ao não saber governar, ao não terem estratégias econômicas para tirar seus povos da miséria e, principalmente, por se permitirem contaminar por ele. Governos corruptos que sempre esconderam suas ineficiências atrás de discursos inflamados.

Justiça seja feita, Castro conseguiu muito mais que muitos líderes que não tiveram de lidar com um vizinho 200 vezes maior e um milhão de vezes mais rico. Sua revolução transformou Cuba que era apenas e tão somente um bordel dos ricos de Wall Street, em um país, uma nação. Devolveu dignidade a sua gente e não sucumbiu.

Mas o mesmo Fidel que derrubou uma ditadura sanguinária patrocinada por Washington, instalou outra. O mesmo Fidel que chegou ao poder ao lado de personagens emblemáticos como Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara, abandonou os princípios que o fizeram triunfar. Inimigos foram fuzilados. Negros, pobres e homossexuais eram eliminados com traços de sarcasmo. Esses eram sempre os preferidos para as execuções sumárias. Os prisioneiros de guerra não tiveram os direitos que os revolucionários sempre cobraram para si em eventos frustrados no passado.

Castro trouxe a Guerra Fria para a América Latina, colocou o mundo à beira de uma hecatombe nuclear e flertou com os Estados Unidos e a União Soviética até se decidir por Moscou. Com o dinheiro dos cubanos, tratou de exportar sua revolução. Jogou dinheiro fora e perdeu importantes aliados. Nenhum movimento revolucionário vingou além de Cuba.

O violento e covarde embargo econômico imposto à ilha em 1962, o colocou à prova como gestor. Uma prova maquiada é verdade, pois a aliança com os soviéticos permitiam que os cubanos andassem de cabeça erguida e em reverência permanente aos seus heróis revolucionários.

Com a queda do Muro de Berlin e a derrocata da União Soviética, Cuba experimentou um dos seus piores momentos. Escassez, fome, racionamento e o endurecimento do regime. A oposição foi sufocada, os direitos civis esmagados e o totalitarismo instalou-se de forma mais aguda. Para Fidel Castro, valia tudo para manter a Revolução de pé, mesmo que os cubanos fossem as únicas vítimas.

Endeusado por uns e excomungado por outros, Fidel Castro construiu uma fortuna, experimentou do bom e do melhor que o capitalismo pode oferecer. Manipulador, inteligente, perspicaz e extremamente simpático, o líder resistiu às transformações, à globalização e não permitiu que os cubanos fossem além de suas fronteiras.

Quando estoura a onda de “balseros” aventurando-se mar adentro em direção aos Estados Unidos, Castro aceita um acordo e “seleciona” bandidos, marginais, pedófilos, homossexuais, negros, aleijados, doentes mentais, entre outros, para que deixem a ilha rumo ao Eldorado norte-americano. Se querem tanto a liberdade dos cubanos, que fiquem com a escória, imaginou.

O futuro

A morte de Castro é também uma mensagem clara ao que ainda resta da velha guarda revolucionária: não há imortalidade. É melhor acelerar a transição se quiserem garantir que a revolução deixe algum legado. A maioria da população cubana não sabe o que é democracia, nunca viveu sob outro regime e desconhece o que é liberdade.

Essa gente vai encontrar coragem para se organizar e buscar algo mais. A Revolução foi importante, mas as urgências do momento se impõem. Quem virá depois que Raul partir?

Miguel Diaz-Canel, de 56 anos, seria a opção mais lógica. Há alguns anos tenho apontado o seu nome como o de alguém que está sendo preparado para comandar a ilha e as transformações de que ela necessita. Inclusive, para dar continuidade à normalização das relações com os Estados Unidos, iniciadas por Barack Obama. Canel e o atual chanceler Bruno Rodríguez, seriam as melhores opções caso Cuba decida tomar outro caminho, mesmo preservando sua admirável dignidade e identidade.

Donald Trump é um sujeito pragmático. Vai olhar para Cuba como um mercado, mas tem uma dívida com a Flórida. Ainda é cedo para imaginar o que fará além da retórica vulgar. O certo é que China e Rússia não esperam e tratam de sedimentar suas presenças na ilha. Há muito para se fazer e fincar os pés no Caribe, em uma região absolutamente estratégica, é olhar para o futuro e para uma nova ordem internacional.

O Brasil seguirá na periferia. Não temos mais o governo alinhado ideologicamente e estamos sob uma administração errática. Uma pena, pensam os empresários que enxergam em Cuba uma janela de oportunidades. A saída de cena de Castro, alimenta ainda mais essa visão. Mudanças importantes estão por vir, embora não saibamos quem ganhará com elas.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.